terça-feira, 22 de outubro de 2013

Poesias

A primeira poesia será Todas as Vidas de Cora Coralina. Boa leitura!


Todas as Vidas

Vive dentro de mim 
uma cabocla velha 
de mau-olhado, 
acocorada ao pé do borralho, 
olhando pra o fogo. 
Benze quebranto. 
Bota feitiço... 
Ogum. Orixá. 
Macumba, terreiro. 
Ogã, pai-de-santo...

Vive dentro de mim 
a lavadeira do Rio Vermelho, 
Seu cheiro gostoso 
d’água e sabão. 
Rodilha de pano. 
Trouxa de roupa, 
pedra de anil. 
Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim 
a mulher cozinheira. 
Pimenta e cebola. 
Quitute bem feito. 
Panela de barro. 
Taipa de lenha. 
Cozinha antiga 
toda pretinha. 
Bem cacheada de picumã. 
Pedra pontuda. 
Cumbuco de coco. 
Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim 
a mulher do povo. 
Bem proletária. 
Bem linguaruda, 
desabusada, sem preconceitos, 
de casca-grossa, 
de chinelinha, 
e filharada.

Vive dentro de mim 
a mulher roceira. 
– Enxerto da terra, 
meio casmurra. 
Trabalhadeira. 
Madrugadeira. 
Analfabeta. 
De pé no chão. 
Bem parideira. 
Bem criadeira. 
Seus doze filhos. 
Seus vinte netos.

Vive dentro de mim 
a mulher da vida. 
Minha irmãzinha... 
tão desprezada, 
tão murmurada... 
Fingindo alegre seu triste fado.

Todas as vidas dentro de mim: 
Na minha vida – 
a vida mera das obscuras.

Agora, a segunda poesia será A Menina Selvagem de Henriqueta Lisboa. Boa leitura!

A Menina Selvagem

A menina selvagem veio da aurora 
acompanhada de pássaros, 
estrelas-marinhas 
e seixos. 
Traz uma tinta de magnólia escorrida 
nas faces. 
Seus cabelos, molhados de orvalho e 
tocados de musgo, 
cascateiam brincando 
com o vento. 
A menina selvagem carrega punhados 
de renda, 
sacode soltas espumas. 
Alimenta peixes ariscos e renitentes papagaios. 
E há de relance, no seu riso, 
gume de aço e polpa de amora. 

Reis Magos, é tempo! 
Oferecei bosques, várzeas e campos 
à menina selvagem: 
ela veio atrás das libélulas. 

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